Incluindo Stephenie Meyer
Todo mundo já ouviu falar de Romeu e Julieta. A aclamada peça de teatro de William Shakespeare atravessa gerações (e MUITOS anos), inspirando autores e apaixonados de todas as formas. Inclusive, dizem algumas más línguas que andou inspirando Stephenie Meyer também. Afinal, todas as citações da obra shakesperiana que aparecem em Twilight devem ter servido como inspiração para alguma coisa (ou será que não?). Também costumam relacionar o casal Edward e Bella a Romeu e Julieta, mesmo depois que Meyer declarou que “Romeu e Julieta eram meio idiotas, eles mal se conheciam quando ficaram juntos” (o que também assusta um pouco, pode confessar). E aí fica aquela pergunta: terá um sentido nisso tudo?
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Olha, sentido ATÉ TEM. Afinal, amores sublimes e desmedidos como o de Romeu e Julieta, tem aos montes, e Meyer não foi a primeira e nem a última que usou do amor proibido a ponto de causar suspiros em milhares de românticos por aí. A questão é: até que ponto Meyer usou, de fato, a VERDADEIRA essência do romance de Shakespeare (e até que ponto ela realmente ENTENDEU do romance)?
Bem, os haters já devem imaginar a resposta que eu tentarei dar no final do post. Mas para TENTARMOS buscar uma resposta, temos primeiro que pensar o que foi Romeu e Julieta. E isso é uma questão complicada. A começar que eu não sou nenhuma entendida máxima no assunto da Literatura (embora tenha estudado um pouco na faculdade e lecionado a matéria por um ano, mas o que quero dizer é que não sou nenhuma expert e também não sou da Área de Letras, então tudo que falarei aqui é através dos estudos que fiz no Ensino Médio, bem como do material que li na época que fui professora). Segundo, e creio que nosso principal “problema”, é que Romeu e Julieta já foi imortalizado como o “maior romance de todos os tempos”, no sentido de que ele é visto apenas como “uma história de amor”, quando na verdade a coisa é BEM maior do que isso. Terceiro… bem, terceiro problema, a meu ver, é que, hoje, Romeu e Julieta é uma história conhecida, mas pouco lida (ou assistida). Muitos sabem que Romeu era um Montecchio, Julieta uma Capuleto, e as duas famílias eram inimigas. Muitos sabem que eles morreram no final. Mas, muitas vezes, é só. É como a historinha da Chapeuzinho Vermelho, é uma história do conhecimento público que a gente conhece porque ouve outros dizerem. Mas a sua totalidade, e tudo que envolveu a sua confecção… bem, os que sabem alguma coisa viu algum filme (o mais recente, que eu me lembre, é a versão com Leonardo di Caprio, da década de 90 – um filme interessante, aliás, porque, apesar de manter os diálogos originais, contextualiza a história em algo mais… contemporâneo). E às vezes, nem isso é suficiente para fazer com que possamos ver além dos beijos e abraços dos dois infelizes apaixonados.
Então, vamos começar falando só de Romeu e Julieta:
1) Classicismo – a volta da razão
A primeira coisa que devemos ter em mente é o período em que Shakespeare viveu, bem como a escola literária em que ele se encaixou.
William Shakespeare (1564-1616) pertenceu a um movimento conhecido como Classicismo. Vamos dizer que Classicismo foi a manifestação literária do Renascimento. O movimento Clássico se espalhou não só na Inglaterra, mas também em outros países como Portugal (cujo principal representante era Camões) e Espanha (Miguel de Cervantes). As características do Classicismo são basicamente: a valorização da cultura antiga (principalmente a greco-romana), o resgate dos valores pagãos (muitas vezes utilizados em mescla com os valores cristãos, como Camões fez em “Os Lusíadas”), e o principal: a valorização dos conceitos ligados à razão (racionalismo, universalismo, naturalismo, etc). Vejam bem: valorização da RAZÃO. Ou seja, sentimentos poderiam até ser retratados e explicados, porém seriam vistos com um viés RACIONAL. Afinal, a Europa estava saindo de um período bastante agitado (e as Cruzadas que o digam), quando a emoção, sobretudo a religiosa, eram não só a vida, mas também a diretriz do estilo de vida. Até mesmo para apagar e desvalorizar toda a produção medieval (que não é pouca e muito menos pobre, que fique claro), os clássicos fizeram questão de rebater cada ponto, e para isso apertaram forte na tecla da razão: os sentimentos podiam ser bonitos, mas ao mesmo tempo eram perigosos. E eles retraram isso das mais diversas formas.
Cervantes foi um dos mais “cruéis”, satirizando nosso querido Dom Quixote, apaixonado por romances e por novelas de cavalaria, a ponto de que até seu escudeiro, Sancho Pança, fosse mais inteligente (sendo ele a voz da razão para o louco Dom Quixote – o que seria considerado um absurdo entre os cavaleiros, imagine um escudeiro sendo mais que seu mestre). Camões não foi muito diferente. Nota-se isso em seu trabalho minucioso em deixar seus poemas perfeitos, sempre na medida nova, com esquemas constantes de rimas e temas também constantes (seus poemas líricos, principalmente).
Ah, mas Camões criou o poema do “Amor é fogo”. O que tem de racional nisso?
Bom, vamos analisar o poema.
“Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer
É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É nunca contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder
É estar-se preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É ter com quem nos mata lealdade
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade
se tão contrário a si é o mesmo amor?”
Bonito? Concordo! Mas vejam bem… amor é fogo que arde, é ferida, não contenta completamente, te deixa solitário, e o ponto chave: deixa a pessoa completamente à mercê de outra (fica preso por vontade, você é leal a alguém que talvez te mate). Apesar do poema ser bonito (e bastante sincero), ele é meio claro: amor é um sentimento meio paradoxal, e por vezes perigoso (mas como causar pode seu favor, nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo amor?). Isso é o lado racional do poema falando mais alto: o sentimento existe, é complexo, mas não é tão bonito assim (mesmo que o poema seja).
Oks, e onde William Shakespeare se encaixa nisso?
Bom, vamos dizer que William foi nosso representante inglês do Classicismo. Seus trabalhos mais famosos foram peças de teatro como Hamlet, Rei Lear, Otelo, Macbeth, Sonho de uma noite de verão e, claro, Romeu e Julieta.
Antes de falar de Romeu e Julieta especificamente, quero falar de duas obras de Shakespeare que eu particularmente conheço um pouco e demonstram o que quero dizer sobre valores clássicos: Otelo e Sonho de uma noite de verão.
Bem, Otelo é um drama. Conta a história de um mouro (árabe), que apaixonado pela bela e européia Desdêmona, se torna cristão e se casam (meio a contragosto do pai dela, mas caso que foi resolvido rapidamente, principalmente porque Otelo era um homem muito bem visto entre os membros do governo). A felicidade do casal ia muito bem, até que Otelo, general do reino de Veneza, promove Cassio (seu grande amigo e um dos responsáveis por ajudar Otelo e Desdêmona a ficarem juntos) a tenente, causando a ira de Iago, alferes que queria o posto.
O que Iago faz? Causa uma intriga digna de novela das oito (ou até mais do que isso, tendo em vista a qualidade das novelas ultimamente), forjando cartas de amor de Desdêmona para Cassio, e fazendo com que Otelo descubra. O ponto alto da intriga se dá quando Otelo encontra o lenço que deu a Desdêmona no quarto de Cassio (obra de Iago, claro). Descontrolado, Otelo acusa Desdêmona de traição e a mata por asfixia.
Quando descobre a armação de Iago, se desespera e se mata.
Cabe dizer aqui duas coisas, uma sobre Otelo e outra sobre Desdêmona. O mouro era considerado um homem fiel, inteligente, forte e tinha grande estima entre os membros do Estado de Veneza. Suas habilidades e estratégias faziam dele uma pessoa de confiança, tanto que foi capaz de convencer o pai de Desdêmona, Brabâncio, e todo o governo de que ele era um bom marido e que eles poderiam ficar juntos (o que era meio raro, tratando-se da união de um europeu com um mouro). Desdêmona, por sua vez, era completamente apaixonada por Otelo. Suas cartas de amor e sua dedicação ao marido (a ponto de desafiar seu pai e o governo de sua nação) eram claras, e ninguém jamais duvidaria de seu amor, quem dirá dizer que ela o traía.
E o que amor fez a eles? Principalmente a Otelo? Transformou-o em uma pessoa desconfiada, descontrolada e matou a ambos, Desdêmona e Otelo. O amor de Otelo era tão desmedido e perigoso que ele sucumbiu aos planos de Iago, como um patinho pagando uma pensão para Stephanie Brito.
Talvez, se Otelo tivesse sido mais racional e apurado o caso com mais cuidado (e tido mais paciência), talvez Desdêmona não tinha morrido. Mas não foi o que aconteceu. Desdêmona e Otelo morreram. Morreram vítimas de um sentimento desmedido, controlado pelos ciúmes. É Shakespeare dizendo “olha só, se não tomar cuidado, se deixar se levar pelo amor, é isso que acontece”.
(e só pra lembrar, Dom Casmurro, de Machado de Assis, foi baseado em Otelo. Vejam também o final de Capitu e de Bentinho)
E aí temos Sonho de uma noite de verão. Essa obra é o total oposto de Otelo: é uma peça leve, de comédia, que retrata a predileção dos clássicos pela cultura greco-romana. A história se passa em Atenas, e começa com Egeu querendo casar sua filha Hérmia a força com Demétrio. Porém, Hérmia é apaixonada por Lisandro, enquanto que sua melhor amiga, Helena, é apaixonada por Demétrio. Para resolver a situação, Hérmia e Lisandro resolvem fugir de Atenas, pois aí podem se casar em outra cidade, livrando-se assim da obrigação do casamento com Demétrio e deixando o caminho livre para Helena.
Os problemas começam quando, na floresta por onde os apaixonados irão passar em sua fuga, está acontecendo a briga entre a rainha das fadas, Titânia, e o rei das fadas, Oberon: ambos disputam a posse de um menino indiano, que é protegido de Titânia. Para descontar sua raiva com a briga e conseguir o menino para si, Oberon arma com o elfo Puck uma armadilha para ela: aproveita que uma companhia de teatro amadora de artesões está ensaiando uma “tragédia hilariante” para o casamento do Duque de Atenas, Teseu, e pede para que Puck jogue uma poção do amor para Titânia se apaixonar perdidamente por algum deles (e quando digo perdidamente, é perdidamente MESMO, para Titânia fazer TUDO pelo seu novo amado, inclusive entregar o menino indiano). Ao mesmo tempo, Oberon presencia a novela de amor de Hérmia, Lisandro, Demétrio e Helena. Demétrio, furioso ao descobrir sobre a fuga de sua noiva, vai para a floresta atrás de Hérmia, e é perseguido por Helena, que chora e suspira para que ele a ame. Oberon, comovido pela dor de Helena, pede para Puck que também jogue a poção em Demétrio, para que assim ele se apaixone pela jovem.
Puck, ser muito travesso e muito atrapalhado, consegue parte do plano. Joga a poção em Titânia, mas no meio do caminho tem um acidente com a companhia de teatro, e com o susto, transforma a cabeça de um deles em uma cabeça de burro – e quem diria, é o primeiro que Titânia vê e por quem se apaixona loucamente. Bem, parte do plano executado. PROBLEMA começa quando tenta cumprir a outra parte do plano. Puck encontra um ateniense dormindo na floresta, e meio afastado dele, uma ateniense dorme também. Puck deduz que esse ateniense é o mesmo de quem Oberon falou, e joga a poção do amor nele. Porém, esse ateniense é Lisandro, que ao acordar, se dá de cara com Helena. E se apaixona perdidamente por ela.
Oberon, ao saber disso, fica furioso, e ambos tentam consertar a situação. Jogam a poção em Demétrio, que finalmente se apaixona por Helena. Porém, agora Lisandro também a quer, e os dois novamente voltam a brigar, deixando Helena confusa e Hérmia desesperada por ter perdido seu grande amor para sua melhor amiga.
E nem vamos dizer que Oberon começa a ficar enciumado ao ver Titânia com tantos carinhos para seu querido burro, mesmo sabendo que isso fazia parte do seu plano (do qual não desiste, deixemos claro).
A história termina com Puck conseguindo um antídoto para a poção, curando Titânia e Lisandro. Titânia volta às pazes com Oberon (principalmente depois das loucuras de amor que fez por um cabeça de asno, o que a deixa bem envergonhada, e depois, claro, que Oberon consegue o menino), e Lisandro volta com Hérmia. Demétrio é deixado sob o efeito da poção, e assim fica com Helena. Os quatro jovens voltam para Atenas, e agora que Demétrio quer ficar com Helena, não resta opção para Egeu a não ser aceitar Lisandro como genro. Todos se casam junto com Teseu e Hipólita, e durante a festa de casamento assistem a peça dos artesões (só para matar a curiosidade, o cidadão amante de Titânia é curado por Puck e volta a ter cabeça de gente), que encenam uma versão cômica da tragédia Píramo e Tisbe (uma das obras que inspirou Shakespeare a escrever Romeu e Julieta, aliás). Puck encerra a peça abençoando todos os casais presentes e dizendo que tudo que viram não passou de um sonho de uma noite de verão.
E eu contei todo esse pastelão que eu amo pra quê?
Bem, vamos ver do começo. A história toda é uma comédia, ou seja, tudo tende a ser satirizado. Incluindo o romance. Basta ver toda a confusão que se cria por causa do amor mal-fadado de Lisandro e Hérmia e dos sofrimentos da solitária Helena. A própria poção de Puck demonstra o lado “escuro” do amor, que deixa cego e faz as pessoas agirem sem pensar: Demétrio e Lisandro começam a brigar e a se duelar por causa de Helena, coisa que não acontecia por Hérmia, por mais que ambos gostassem dela. O amor insano, descontrolado, juvenil, imprudente, impensado. E que fez Titânia se apaixonar perdidamente por um asno O.O
Aaaaaaaah, mas aí não é amor de verdade.
EXATO! Não é amor de verdade. Mas todos pensaram que fosse. Assim como muitos pensam que aquele carinha legal é o amor da sua vida, ou que vai se casar com seu primeiro namorado/amor. Esse tipo de “amor” é o amor louco, perigoso, que só não terminou em tragédia porque os enamorados (com exceção de Demétrio) acordaram. Ou seja, Shakespeare satirizou e condenou de novo o amor, agora de uma maneira diferente. Em Otelo, condenou o amor verdadeiro, porém obsessivo, sem controle. No segundo, condenou o falso amor. A racionalidade sendo valorizada em relação aos sentimentos (neste caso, o amor), mesmo que de uma maneira indireta (e no caso de Sonho de uma noite de verão, de maneira bastante divertida).
Mais provas? Ainda em Sonho, temos que Oberon foi o único que REALMENTE se deu bem em toda a história. Ele gosta de Titânia? Gosta, não vamos dizer o contrário (mesmo que os dois só briguem e ele constantemente arraste uma asinha para Hipólita). Ele se comove com as questões sentimentais? Se comove, tanto que tentou ajudar Helena. Ele fica incomodado ao ver Titânia com outro, mas ainda assim segue seu plano até o final. Resultado: volta às pazes com ela e ainda consegue o menino. Se isso é certo? Eu não sei. Confesso que acho até meio sacana da parte dele (e algumas outras coisas que não vem ao caso agora). Mas o fato é que Oberon foi o único que conseguiu controlar suas emoções, deixando sua astúcia falar mais alto, ao executar o plano contra Titânia. E ele se deu bem. Mesmo com todas as atrapalhadas do Puck, detalhe.
Shakespeare é um autor clássico. E suas obras seguem essa tendência. Incluindo Romeu e Julieta.
Então vamos a ele.
2) Romeu e Julieta – antes de tudo, uma tragédia.
Eu disse um pouco acima que uma das inspirações para a obra de Shakespeare foi Píramo e Tisbe, que na peça Sonho de uma noite de verão é satirizada na versão cômica dos artesãos. Bem, rola boatos de que, paralelamente a Sonhos, Shakespeare escreveu “Romeu e Julieta”. Se escreveu, não vem ao caso, mas é legal por ver como ele usou o conto grego de maneiras diferenciadas. No caso de Romeu e Julieta, a inspiração foi clara, tendo em vista a tragédia devido ao romance proibido (o que prova que nem Romeu e Julieta foi inovador nesse ponto.Quem dirá a Meyer). E o final evidentemente trágico.
Acho que a história de Romeu e Julieta já é conhecida pelo público, mas já que descrevi a de Otelo e a de Sonho, vamos falar um pouco dela: Romeu Montecchio é o único filho dos Montecchio, família importante em Verona, e rival de outra família igualmente importante, os Capuleto, de quem Julieta era única herdeira (embora tivesse seu primo Tebaldo). As brigas entre Montecchio e Capuletos estão proibidas em Verona pelo príncipe Escalo, e a pena para quem se envolver em tais brigas é a pena de morte. Ótimo, as coisas parecem estar sob controle.
Até que os Capuleto decidem dar uma festa à fantasia, onde todas as famílias nobres da cidade (com exceção dos Montecchio, claro) são convidadas. Nessa festa, o senhor Capuleto pretende apresentar sua filha Julieta ao nobre Páris, parente do príncipe Escalo, com quem quer casá-la.
Paralelo a tudo isso, temos o jovem Romeu sofrendo as dores do amor. Apaixonado por Rosalina, uma jovem que prometeu ser virgem para sempre, Romeu está em depressão profunda, querendo morrer por causa de sua paixão não correspondida. Para consolá-los, seus amigos Bertólio (que é primo de Romeu) e Mercuccio decidem levá-lo à festa dos Capuleto: Mercuccio, também parente do príncipe, foi convidado, e pode levar todos os amigos que quiser. Os jovens aproveitam que o Baile é de máscaras e entram disfarçados, e não são reconhecidos. Romeu não gosta muito da ideia, mas quando sabe que sua amada Rosalina vai, decide ir também para contemplá-la.
No baile, Romeu vê Julieta e a paixão entre os dois é instantânea. Exatamente o que você leu, é a primeira vista. Mas e Rosalina? Bem, Romeu encontrou em Julieta o conforto para esquecer Rosalina de vez e recomeçar. E nessa festa ambos trocam juras de amor, até descobrirem quem realmente são, e começarem todas as lamentações.
Isso não seria nada, se na festa o primo de Julieta, Tebaldo, não tivesse reconhecido Romeu e jurado matá-lo pela infâmia de ter ido ao Baile. Só não o faz na festa porque seu tio, senhor Capuleto, o impede, dizendo que não era ocasião, além de que Romeu era bem visto em Verona, para não falarmos da lei do príncipe Escalo. Mas isso não faz Tebaldo desistir: pelo contrário, ele jura ir desafiar Romeu no outro dia.
Entre o fim da festa e o outro dia, temos a famosa cena do balcão de Julieta, onde ambos trocam suas juras de amor, lamentam a rivalidade de suas famílias e prometem que, mesmo assim, vão se casar, como prova do amor de Julieta e das boas intenções de Romeu. É, amigo, é o que você pensou: eles se conheceram, se apaixonaram e já vão se casar. E eu garanto, assim como está parecendo estranho para você, também era meio estranho para Shakespeare. E por isso ele fez assim.
No outro dia, Romeu vai conversar com Frei Lourenço, pedindo sua ajuda para realizar, ainda naquela tarde, o seu casamento com Julieta. E surpresa? Frei Lourenço TAMBÉM estranha muito essa paixão repentina. O que fica claro em sua fala:
“Por São Francisco! Que mudança é essa? Rosalina adorada e tão depressa posta no esquecimento? O coração no amor dos moços nada influi, senão somente os olhos. Ai! Jesus Maria! Quantas ondas salgadas, noite e dia, a postura banharam-te amarela, só pelo amor de Rosalina bela? Quanta água salsa em vão jogada fora por um amor que ele não sente agora! Não desfez ainda o sol, em muitos giros, os vapores, no céu, de teus suspiros. Sinto ainda tuas queixas nos ouvidos. Eis em tua face, aqui, dos tempos idos, uma lágrima ainda não lavada, que origem teve em tua namorada. Se o mesmo ainda és, que só de amor se fina, foi causa de tudo isso Rosalina. Mudaste tanto? Ouve a sentença amara: cai a mulher, quando o homem não a ampara”
Ou seja… WTH, ROMEU? Chorou tanto por Rosalina e de repente ama a sua inimiga?
Só que, apesar de estranhar MUITO esse amor, Frei Lourenço vê na união dos jovens uma chance de acabar com a rixa entre os Montecchio e Capuleto. Então, pensando nas vantagens e no bem maior da cidade, que não aguenta mais a briga, ele decide ajudar o jovem casal, combinando com Romeu o casamento para aquela tarde. Romeu, contente, encontra-se com a ama de Julieta, que leva o recado para sua querida pupila, e o casamento acontece. Frei Lourenço fica feliz: afinal, que mal poderia resultar naquele casamento? Só coisas boas viriam.
Mas acho que vocês lembram do primo da Julieta, Tebaldo. Que jurou vingança. Pois bem, logo após o casamento secreto, Tebaldo encontra Romeu, e o desafia. Romeu, agora parente de Tebaldo, tenta negar o duelo, dizendo que agora ama Tebaldo, e não pode fazer mal a ele. Tebaldo, irado e querendo lutar de qualquer forma, duela com o amigo de Romeu, Mercuccio. O duelo é tão desastroso que Romeu, tentando impedir o combate, entra na frente de Mercuccio, deixando chance para Tebaldo ferir Mercuccio por debaixo do braço de Romeu. Mercuccio morre, amaldiçoando aquela guerra, e Romeu, frustrado, duela com Tebaldo, vencendo ao matá-lo.
Agora Romeu matou Tebaldo. O primo da sua esposa. E o príncipe Escalo está doidinho, porque sua lei foi quebrada. O que ele faz? Foge. Se esconde na capela de Frei Lourenço.
Escalo, por sua vez, ao ver que duas pessoas já morreram, decide que não é hora de condenar mais um a morte, e ao invés do castigo inicial, decide apenas exilar Romeu em Mântua. Ok, Romeu não será morto, vamos dar tempo ao tempo e quando a poeira abaixar, contemos de seu casamento com Julieta e tudo voltará ao normal, certo? Bem, foi isso que pensou Frei Lourenço. Mas Romeu estava tão desesperado e tão triste por ter que ficar longe de sua Julieta. Frei Lourenço o conforta, falando de seu plano e de como o destino foi bondoso com ele (e realmente foi), pois estava vivo e só tinha sido exilado. Com o tempo, tudo ia se acertar. Romeu passa sua noite de núpcias com Julieta e, pela manhã, vai para Mântua.
Tudo certo de novo… até o pai de Julieta, tentando consolá-la pela morte de Tebaldo (razão pela qual ele acha que ela está chorando), marca seu casamento com Páris para quinta-feira. Mas espera aí: Julieta JÁ está casada. E ela não quer nem saber de outro marido, ela apenas quer o seu Romeu. E discute com o pai, ele a amaldiçoa, e ela fica sozinha aos prantos. Sem alternativa, Julieta tenta se matar, mas algo fala mais alto e ela vai conversar com Frei Lourenço. O pobre padre se vê de novo numa enrascada, mas consegue arrumar uma solução: Julieta tomaria uma poção que a faria parecer morta por um dia. Enquanto os Capuleto a enterravam, Romeu seria avisado em Mântua, e no fim das vinte e quatro horas, ele e Frei Lourenço a roubariam de seu túmulo, e o casal ficaria em Mântua. Quando tudo estivesse passado, e a poeira abaixado, eles voltariam, revelariam o casamento e tudo ficaria bem. Tinha jeito ainda. Julieta aceita, e na véspera de seu casamento com Páris, ela toma a poção.
O plano seguia bem. Mas a carta de Frei Lourenço a Romeu não chega a ele. E para piorar, um amigo de Romeu fala da morte de Julieta. Romeu enlouquece, de tal forma que decide se matar, pois não pode mais viver sem sua amada. Compra veneno e, sem pensar duas vezes, vai para Verona. Frei Lourenço até tenta tirar Julieta do mausoléu antes de Romeu chegar (afinal, conhecendo Romeu, sabia que ele viria ver o corpo da amada), mas é impedido com a chegada de alguém. Romeu e Páris.
Páris chega primeiro, e começa a chorar. Ao entrar no mausoléu dos Capuleto, Romeu encontra e mata Páris para entrar no mausoléu, onde encontra Julieta sob o efeito da poção. Toma o veneno e assim morre. Instantes depois, Julieta acorda. E para seu desespero, tanto Páris quanto seu amado Romeu estão mortos. Frei Lourenço, desesperado, tenta levá-la consigo, mas com a chegada do príncipe Escalo, foge, deixando Julieta sozinha no mausoléu. A jovem, encontrando uma adaga com Romeu, se mata. Quando Escalo vê a situação e ouve Frei Lourenço, amaldiçoa toda a cidade, mostrando até onde o ódio das famílias chegou.
Ok, qual a moral nisso tudo? Bem, primeiro que Romeu e Julieta eram amados por Murphy -n. Tá, brincadeiras à parte (embora seja bem verdade o azar dos dois), temos um romance que tinha tudo para dar certo, MESMO com os infortúnios. E por que não deu? Porque tanto Romeu quanto Julieta foram imprudentes. E não digo isso porque eles se apaixonaram e já foram se casando, embora isso ajude no que falarei a seguir. Foram imprudentes porque se deixaram levar pelas emoções, do começo ao fim. Se Romeu não tivesse se descontrolado com a morte de Mercuccio, Tebaldo não teria morrido por suas mãos, e ele não seria condenado a nada (e não tinha por que se vingar de Tebaldo, ele seria castigado de qualquer maneira, principalmente porque ele matou um parente do príncipe). Mas matou. E aí foi para Mântua.
Se Julieta não tivesse se descontrolado tanto ao saber do exílio de Romeu, talvez seu pai não tivesse levado o seu sofrimento como perigoso, e não teria marcado o casamento. Mas não, ela chorou tanto que ele preferiu apagar a dor com outra coisa. Tudo bem. Mas se Julieta não tivesse se descontrolado mais ainda quando soube de seu casamento, provavelmente ela não brigaria com seu pai, e talvez até o convencesse a adiar o casamento. Mas não, Julieta se recusou terminantemente a casar, e com isso só causou a ira do pai, deixando o casamento para quinta. Ok, então. Vamos tomar a poção.
E vem o erro fatal. Se Romeu não tivesse se desesperado TANTO por Julieta, se tivesse ido buscar mais informações com Frei Lourenço sobre a morte, se não tivesse achado que sua vida acabou só porque ela morreu, com certeza ele saberia da verdade e Julieta seria resgatada. Mas não, ele achou que sua vida perdeu o sentido, pegou a poção, matou Páris e se matou, se nem mesmo saber detalhes do que tinha acontecido. Se nem mesmo buscar auxílio de alguém. Se nem ao mesmo CONSIDERAR de que a vida dele podia continuar, mesmo com tragédia tão forte. Com isso, Julieta também comete o mesmo erro, se negando a seguir com Frei Lourenço e preferindo a morte.
Eles podiam evitar a tragédia. Mas Shakespeare não quis assim. Porque ele queria UMA TRAGÉDIA. Para comprovar até onde o amor obsessivo e imprudente poderia levar. A razão faltou DIVERSAS vezes ao casal (mesmo que Frei Lourenço e por várias vezes a ama também os alertassem e dessem sábios conselhos), e com isso chegaram ao fim que conhecemos. O casal que se apaixonou daquela maneira até meio inacreditável, que eram tolos o suficiente para se deixarem levar pelo amor cegamente, para Shakespeare, só poderiam terminar tragicamente. NÃO ERA PARA SER UM ROMANCE BONITO. NÃO ERA PARA SER UMA HISTÓRIA DE AMOR VERDADEIRO (aliás, algumas vezes me questiono se o amor de Romeu e Julieta era de verdade). Era para ser uma tragédia, alertando os jovens para o que a falta de razão e bom senso pode fazer. Shakespeare queria nos passar uma lição. Amor tem que ser MEDIDO, PONDERADO, RACIONALIZADO. E pelo visto a lição é ignorada até hoje ¬¬ Afinal, Romeu e Julieta viraram sinônimo de amor eterno, verdadeiro e ideal. Por que, eu não sei. Mas virou.
E o engraçado é que em vários momentos da peça, vemos a verdadeira opinião de Shakespeare falando mais alto, principalmente na figura do Frei Lourenço. A minha cena favorita é a cena do casamento, onde o padre dá um discurso bonito sobre amor e de como ele deve ser levado. Vou colocar para vocês lerem.
“Essas violentas alegrias têm fim também violento, falecendo no triunfo, como a pólvora e o fogo, que num beijo se consomem. O mel mais delicioso é repugnante por sua própria delícia, confundindo com seu sabor o paladar mais ávido. Tem, pois, moderação, que o vagaroso, como o apressado, atrasam-se do pouso. (Entra Julieta.) Eis a dama que chega; uns pés tão leves não gastarão jamais a pedra eterna. O amante pode andar por sobre as teias que no ar balouçam, álacre, do estio, sem, contudo, cair; leve é a vaidade.”
TEM, POIS, MODERAÇÃO, QUE O VAGAROSO, COMO O APRESSADO, ATRASAM-SE DO POUSO! Quer coisa MAIS CLARA DO QUE ISSO? Shakespeare não disse que não podia amar, mas disse algo, lá no século XVI, que dizemos até hoje: AMEM, MAS COM MODERAÇÃO. Saibam ponderar, saibam levar, que tudo em exagero é ruim.
Mas pobre Frei Lourenço, foi esquecido nesse quinhentos e tantos anos..
E talvez isso explique muito.
3) Romeu e Julieta através dos tempos – o que ninguém ousou contrariar.
Assim como Shakespeare seguiu a linha das histórias que o inspiraram para Romeu e Julieta – tragédia! – a gente nota que outros autores, com o passar dos anos, repetiu o feito. Todos consideravam Romeu e Julieta um belo exemplo de casal, mas qualquer casal que repetisse os seus feitos geralmente terminavam com o mesmo fim. E isso é meio curioso: por mais que as pessoas TORCESSEM por Romeu e Julieta e seu final feliz, poucos ousaram a concretizar esse final feliz, e até me arrisco a dizer que os que tentaram não foram bem sucedidos.
O mais engraçado nessa história toda é que, de Shakespeare pra cá, tivemos muitos movimentos literários. Alguns mais voltados à razão, como o Arcadismo e o Realismo, outros voltados mais para o sentimental, como o Romantismo e o Simbolismo. Alguns nem se conseguem definir exatamente para que vertente segue, como o Modernismo. Mas é fato: até mesmo os mais exacerbados, como os românticos (já discutidos aqui nos posts da Tammie e da Jã), sabiam que o amor idealizado, sublime e exagerado tinha um fim meio comum: morte. A diferença se dava apenas na maneira como viam isso: se de maneira boa ou ruim. Mas o fim era sempre o mesmo.
E os romances de folhetim? E as obras de, sei lá, José de Alencar? Eles também seguiam a fórmula? Também não eram amores impossíveis, mas com finais felizes?
Bem, primeiro depende do romance. Nem todo romance de folhetim tinha final feliz, assim como nem todo romance do Alencar tinha bom final (vide Iracema). Nem todo romance daquele tempo tinham problemas ou eram tão intensos como de Romeu e Julieta. Aliás, uma parte dos romances de folhetim, pelo menos dos que eu li, apresentavam casos de amor puros, inocentes e fofos, mas também ponderados, e o maior sofrimento se dava mesmo em pequenas confusões, facilmente resolvidas (principalmente quando a razão dava o ar da sua graça). Mas bem, isso não significa que não existiu os casos de amor extremamente complicados que, depois de muita luta, conseguiu ter seu final feliz.
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Nenhum com muito êxito, creio eu. Tanto que a “síndrome” de Romeu e Julieta continua perdurando por anos, todos torcendo que os casais de amores impossíveis tenham seu final feliz, e geralmente chorando no final porque alguém morreu. Titanic que não me deixe mentir.
(o que me faz pensar… pelos céus, NEM EM TITANIC O CASAL FICOU JUNTO! Uma história de amor em um filme feito para vender, e James Cameron não arriscou, talvez por saber que não seria a mesma coisa e não seria coerente se Rose e Jack ficassem juntos – pra mim, ficou até mais bonito com Rose seguindo sua vida sozinha, a prova de que, MESMO com um amor intenso, e mesmo sofrendo, ela ouviu a voz da razão e seguiu em frente pra ficar viva. Coisa que Julieta não fez. E convenhamos, Rose e Jack tinham muitas semelhanças com Romeu e Julieta – e não digo isso só porque Romeu e Jack foram interpretados pelo Leonardo Di Caprio).
(e vendo bem agora, até as iniciais são as mesmas. R e J. LOLEEEEEEE!)
Mas aí chegamos no século XXI. E uma escritora resolve fazer sua versão de Romeu e Julieta.
E finalmente, o objetivo do post: por que deu errado?
4) Twilight – onde Meyer errou (não, não é repeteco do outro post. Mas estamos quase lá)
Acho que vocês perceberam na história de Romeu e Julieta semelhanças incríveis com nosso casal amado (-nn) Edward e Bella. O amor repentino, a vontade súbita de ficar juntos (mesmo que digam que é meio irracional), os desastres pelo caminho, e até mesmo a “suposta” morte, que faz o Romeu da situação (Edward) enlouquecer e querer morrer sem nem pestanejar. O amor é igualzinho: desmedido, intenso, inconsequente. Então, é normal que comparem mesmo, ainda mais quando a autora resolve citar a obra no livro. A única diferença? Edward e Bella não morreram (quer dizer, Bella não morreu, já que o Edward está morto… ah, vocês entenderam). E isso é MUITA coisa.
Por quê?
Simples: porque, quando Edward e Bella não morrem, significa que tudo que eles fizeram valeu a pena, e muitos passam a tomar o amor dos dois como algo válido e correto. FINALMENTE Romeu e Julieta ficaram juntos E VIVOS. Agora posso me tranquilizar e viver um amor tão irresponsável quanto o deles, porque não corro mais o risco de morrer.
(e nem vou tocar que, além de vivos, eles agora são IMORTAIS. Tudo que Romeu e Julieta não podiam ser – embora o sejam, de certa forma, mas em um sentido diferente)
Parece exagerado falando assim, mas é exatamente o que acontece, PRINCIPALMENTE PORQUE MEYER CITOU ROMEU E JULIETA NA OBRA. Quem lê pensa: ótimo, ela conseguiu fazer com que desse certo. Agora posso ser feliz, sem ter medo de ser ultra romântica(o) e esquecer o mundo e a prudência. Isso aconteceu porque ela DISTORCEU o que Romeu e Julieta significavam.
(e talvez por isso faça tanto sucesso: ela deu pro público o que eles queriam por anos, talvez por séculos. Claro que isso não a faz uma heroína nem nada – afinal, nem tudo que o grande público quer é o ideal, certo?)
Não que o problema esteja em eles ficarem juntos. Longe disso. O problema tudo foi O MEIO com que eles ficaram juntos. Eles repetiram a dose de Romeu e Julieta. Só que a dose de Romeu e Julieta leva à morte. E Meyer usou a mesma fórmula para… deixá-los vivos e felizes para sempre. Ou seja: DANE-SE o que rolou no meio. Enquanto Shakespeare se esforçou para valorizar o meio e com isso chegar ao final, Meyer usou o meio apenas para entreter, e o final não foi coerente.
“Ah, mas por que ela não pode deixar os dois juntos? Ninguém disse que todos precisam imitar Romeu e Julieta”.
É, ninguém disse. Mas ser de Deus, pensa comigo, o que você ESPERA de histórias emotivas demais, com tanto drama e tanta inconsequencia junta? O que você espera de um romance que começa sem mais nem menos (que é o caso de ambas histórias)? Se você pensar de maneira coerente, de maneira REALISTA, termina em algo triste. E histórias tendem a seguir a coerência da vida real (ainda mais livros, que influenciam milhares de pessoas. E agora, jovem Werther que o diga). É ISSO que faz as histórias serem BOAS (ou, no mínimo, plausíveis e razoáveis).
O que Meyer fez? Copiou TODA a receita de Romeu e Julieta, que só pode levar a um fim. E quando chegou a esse fim, MUDOU TUDO. Me diga: isso é mérito?
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Claro que não. Isso só mostra que ela quis satisfazer um desejo íntimo dela, ignorando algo que ela, como profissional da área de Letras, deveria saber mais do que ninguém: NEM TUDO É POSSÍVEL EM UMA HISTÓRIA. Tipo, você não pode dar um final bonitinho pra sua história só porque você quer, se ele não é coerente com tudo que você escreveu. E desculpem-me, se você imitou Romeu e Julieta, o final tem que ser no mesmo rumo. A não ser que você seja MUITO bom. Muito bom MESMO. OU que você queira passar uma mensagem com tudo isso, que vai além do “quero que eles fiquem juntos porque gosto disso”. Como Meyer não é muito boa, e muito menos tinha qualquer outra mensagem útil a passar… bem, creio que posso considerar isso um erro da parte dela.
Não adianta você querer mudar uma coisa dessas proporções. Tem que saber fazer.
5) Então, a gente não pode comparar Twilight a Romeu e Julieta?
É amigo, é mais ou menos isso. Não, você não pode. Quer dizer, até pode, mas não como obras iguais. Não importa se ela imitou a receita. Só o fato de ela ter mudado o final assim, sem mais nem menos, demonstra que as duas obras não tem NADA A VER. Mesmo que tenham usado a mesma historinha de amor. Usando uma comparação bem esdrúxula, Twilight e Romeu e Julieta são como sonho e lua de mel (os doces): mesmo recheio, mas doces completamente diferentes.
Ok, perdão de novo pela brincadeira tosca. Mas o que eu quero realmente dizer é: Twilight não pode ser o “Romeu e Julieta” do século XXI porque as MENSAGENS são diferentes. Os OBJETIVOS são diferentes. Você pode compará-los, mas a conclusão que você precisa chegar é essa: NÃO SÃO IGUAIS. Romeu e Julieta tinha um objetivo BEM diferente a passar para o público em relação ao que se vê em Twilight. E aposto com você que cada vez que alguém diz que Edward e Bella são os novos Romeu e Julieta, Shakespeare se remexe em seu túmulo (como se ele não tivesse muitos outros motivos para isso).
O problema NISSO tudo é que parece que tanto os leitores da saga quanto a própria Meyer se esquecem disso. E creio que a razão disso é a mesma que eu disse no começo do post: as pessoas esquecem de que Romeu e Julieta é uma tragédia do Classicismo, e a veem apenas como uma história de amor. Só que os leitores errarem isso, ainda mais aqueles que não tem muito contato ou muito interesse pela Literatura, ainda é aceitável. Mas Meyer é formada em Letras! Formada em Letras nos EUA, ou seja, estudou A LÍNGUA INGLESA e com certeza ESTUDOU SHAKESPEARE ATÉ SE ENTUPIR. Ela deveria entender Romeu e Julieta mais do que ninguém (entender, não gostar, que fique claro). Então, não faz o MENOR sentido ela cometer uma gafe dessas. Quer dizer, faz, se você considerar que ela ignorou tudo isso para seu próprio benefício. O que, vindo da Meyer, não me espantaria muito.
E isso só torna ainda pior a declaração dela de que “Romeu e Julieta eram meio idiotas, eles mal se conheciam quando se apaixonaram”. Porque demonstra que, além dela não olhar pro próprio umbigo (afinal, Edward e Bella TAMBÉM não se conheciam, EXATAMENTE por imitarem Romeu e Julieta – o que também torna a coisa meio cínica), ela não entendeu o romance. Afinal, se Romeu e Julieta não fossem “meio idiotas”, a gente não tinha a peça, e muito menos a mensagem que Shakespeare quis passar.
E, claro, o fato dela CITAR Romeu e Julieta na Saga confirma tudo isso. E aí fica a minha mensagem: queridos fãs hards, por favor, não achem que só porque ela citou obras clássicas que isso faz do livro bom ou dela uma grande entendida. SAIBAM do que falam esses livros. E aí, quem sabe, vocês veem que Meyer realmente não entende muito da coisa. Do contrário, ela não citaria.
Lily